Infinito-Palavra
Minha mãe colecionava palavras quando eu era pequeno. Fazia mil associações de idéias e inventava expressões que nunca ninguém ousou repetir, por reconhecerem que a elas pertenciam. Nenhum sentido teriam as suas palavras se estivessem na boca de um outro ser. Minha mãe sempre foi a dona do que dizia e eu, criança tão dela, cresci nesse universo de invenções lingüísticas. Talvez por isso, tenha me tornado escritor, talvez por isso não consiga me estabelecer em códigos fechados ou escolas definitivas. Minha escrita é desordenada como as palavras de minha mãe. Eu sou desordenado, um pouco de caos, um muito de vontade de quebrar os copos e beber refrigerante na garrafa. Um dia, minha mãe me deu um dicionário. Ela queria que eu inventasse palavras como ela, mas desejava que eu soubesse daquelas que já existiam para pensar em quão tolo são os homens que falam palavras inventadas por outrem. Na minha casa, cada um falava aquilo que inventava. Quando alguém gostava muito do invento do outro, pedia emprestado. Eu não gostava, mas cedia. Tenho muito apreço pelas coisas que invento e acho difícil sair por aí oferecendo versos como quem distribui panfletos em tempos de eleição. Mas minha mãe me ensinou a ser generoso. Eu invento que sou generosidade. Ontem mesmo, durante um mergulho noturno, um bêbado me abordou na orla de Ipanema e me pediu um trocado. Eu recusei. Mas o chamei para uma cerveja. Bebemos até às 4 da manhã e no final da noite ele me agradeceu e partiu. Tolo como todos os homens que pedem, ele nem sequer percebeu que a melhor coisa da noite não podia ser comprada por uns trocados. O mar não tem preço e ele simplesmente não mergulhou. Preferiu pegar seu papelão, atravessar a Vieira e Souto para dormir na calçada fria. Se eu tivesse um dicionário na hora, o presenteava. Mas pra quê? Ele nem deve saber ler. Voltei pra casa e num surto de nostalgia liguei pra minha mãe. Ela estava dormindo e muito incomodada por ser acordada inventou mais uma palavra – na verdade um xingamento que não vou reproduzir porque ela não permite. E eu fico pensando se não é melhor falar o que é dito do que dizer o que já não é falado. O que me alivia é saber que a palavra mora no infinito. E lá, não temos pressa de acabar a fala.
Por Léo Nolasco em 19 de agosto, às 16:04
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Madre
O que você conhece de mim
é essa parte que deixo visível
é o sorriso, o andar, o gesto insensível
até o calar dos sentimentos mais puros
o que eu deixo mostrar
é esse menino inseguro
que pega na sua mão
e pede a sua ajuda
mas, moça, não se iluda
com a minha dependência
eu aprendi a voar, a correr
a atravessar oceanos e desvendar tempestades
mas tem dias que a saudade invade
e eu penso somente em seu colo
sim, eu cresci mãe,
mas tem dias que penso em você
e serenamente choro. Por Léo Nolasco em 8 de junho de 2008, às 01:06
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Camelô de Gente
Não tenho pressa de nada
Não sei contar o tempo,
Não sei sentir para fora
Do meu quarto de porta fechada
Eu coleciono fatos na calçada
Vendo quinquilharias de gente
Camelô que sou dessa máquina
Chamada palavra
Se eu digo “amo”
Já não sinto a dor
De sentir de verdade
Apenas invento uma vontade
E satisfaço a minha curiosidade
Diante do sobre-humano
Sou eu aqui, atrás desse pano,
Dessa máscara, dessa tarde de sol
Enquanto dormem os poetas
E as mulheres felizes
Gosto de não ter raízes
Admiro rasgar as folhas
E gritar sem remorsos que acabou
Amanhã eu volto, com outra cara e outro corpo
Mas ainda assim serei o mesmo,
O oposto, o contragosto do que sempre fui
Contradição? Sim, é meu nome.
E não há no mundo nada mais coerente que ser homem.
Por Léo Nolasco em 20 de agosto de 2008, às 17:25.